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02/03/2010
PERPLEXIDADE
Telma de Souza
As últimas manchetes referentes à situação da saúde na Baixada Santista têm me deixado perplexa. Não porque elas surpreendam, mas exatamente pelo motivo contrário. Ou seja, as graves deficiências apontadas e suas nefastas conseqüências para a população não surgiram da noite para o dia. São resultado de um longo processo, que não mereceu, dos poderes públicos responsáveis, a atenção urgente e prioritária que merecia.
O que vemos nas seguidas manchetes dos jornais e nas chamadas dos meios eletrônicos é apenas a ponta de um enorme iceberg, que foi se formando e fortalecendo a partir de uma total falta de planejamento adequado e visão distorcida dos preceitos que deveriam nortear o atendimento à saúde pública. Há falta de leitos hospitalares para suprir a enorme demanda atual? Sem dúvida. Há falta de verbas à altura dos desafios impostos por um atendimento adequado? Com certeza. Enfim, existe uma série de carências que precisam ser sanadas. Ocorre que tais medidas irão, quando muito, amenizar a hemorragia do “paciente”. Em muito breve, sem uma mudança radical de abordagem, os problemas voltarão, e em maior escala.
Quando nossa administração à frente da Prefeitura de Santos, implantou uma nova concepção de atendimento à saúde pública no município, nossa equipe não o fez baseada em um projeto inventado por algum iluminado, mas fundamentada em experiências exitosas que começavam a ser implementadas no Brasil, no Caribe e em alguns pontos das Américas do Sul e Latina. A grosso modo, essa concepção se baseava em dos pilares essenciais. O primeiro colocava os postos básicos – em Santos, chamados de policlínicas – como porta de entrada do sistema. Ali era definido que tipo de atendimento o paciente deveria receber, dando-se, então, o encaminhamento necessário. O objetivo primordial desse procedimento era prestar assistência imediata e evitar a sobrecarga do sistema (a superlotação dos PSs e a ocupação de leitos hospitalares), com a inevitável elevação de custos.
Criaram-se também instrumentos auxiliares, como, por exemplo, o Programa de Internação Domiciliar (PID). Todo esse processo foi acompanhado por uma requalificação das equipes médicas, para operarem no novo sistema, e uma condizente valorização profissional, que não envolvia apenas salários, mas adesão e compromisso com os novos procedimentos.
Outro pilar fundamental era a integração de secretarias municipais, com políticas focadas na promoção da saúde. Alguns exemplos simples. A qualidade da merenda escolar e o acompanhamento da criança já dentro da escola quase sempre evitarão problemas de saúde que recairiam sobre a rede pública. Se houver um acompanhamento eficaz da assistência social das famílias em situação de risco, isso também terá caráter preventivo.
Esse sistema, que deu os melhores resultados possíveis - a saúde foi um dos setores mais bem avaliados e uma marca, tanto em nossa gestão quanto no governo seguinte, de David Capistrano Filho -, foi, em algum momento, comprometido e abandonado. A filosofia de se centrar as policlínicas como entrada efetiva para o sistema e de se realizar um trabalho integrado entre diversos setores da administração foi abandonada. O resultado não se mostrou negativo apenas para Santos. Teve reflexos em praticamente toda a região, já que vários municípios procuravam implantar sistemas inspirados no santista.
Cito esses fatos porque entendo ser urgente que os poderes públicos da região passem a debater já um planejamento que não apenas estanque a hemorragia atual, mas realmente comece a aplicar uma terapia que ataque as causas da “doença” e garanta uma vida saudável para os pacientes, de hoje e do futuro. Ninguém seria tolo ou irresponsável de não reconhecer a necessidade de medidas imediatas quanto ao aumento do número de leitos e de maiores verbas para a saúde na Baixada Santista. Não podemos, porém, tratar dos sintomas como se eles fossem a causa da doença. Planejamento e ousadia são as palavras-chaves neste momento crucial.
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