Jogo cada vez mais perigoso
Telma de Souza
Embora estejamos às vésperas de mais um carnaval, é impossível escaparmos da apreensão que toma conta do mercado financeiro internacional, diante da já prolongada e imprevisível crise nos Estados Unidos, bem como nos alhearmos da sensação de incerteza a respeito dos reflexos desse quadro sobre a economia brasileira.
Sem pretensão de travar aqui debate mais aprofundado sobre o assunto, o qual deve ficar a cargo dos especialistas do setor, o que está longe de ser o meu caso, gostaria de expressar aqui algumas opiniões em nível de simples cidadã frente às notícias que são diariamente divulgadas pela imprensa.
Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que a defesa ferrenha que, há não muito tempo, se fazia da globalização econômica mostra-se, a cada dia, mais inviável, diante do gigantesco saldo negativo desse sistema para o mundo, comparativamente aos reduzidos pontos positivos que ele proporcionou até agora. A atual crise financeira é mais um exemplo contundente de que a interdependência da economia mundial democratiza muito mais prejuízos do que benefícios.
Um segundo ponto é que, ao contrário de situações anteriores - e recentes -, o país apresenta hoje uma consistência econômica bem menos vulnerável às turbulências externas. A constatação de tal fato, neste momento, é por demais importante, já que o Brasil atravessa um período de franco desenvolvimento, a partir de dados positivos que se acumulam em diversos setores da economia.
Ou seja, uma grande vulnerabilidade às tempestades financeiras no mercado internacional nos exporia não só a uma inevitável crise interna, mas também a um igualmente inevitável retrocesso do fluxo desenvolvimentista que vivenciamos, com graves conseqüências a médio e longo prazo.
Ao mesmo tempo, devemos manter o máximo de equilíbrio frente ao bombardeio de notícias, muitas delas desencontradas, a respeito da crise financeira mundial. Isso porque é fácil perceber que determinados setores da imprensa, como já fizeram em outras ocasiões sob outros pretextos, procuram, de todas as formas, contaminar o ambiente interno da economia brasileira com a turbulência externa, com objetivos claramente políticos de tentar desqualificar os esforços do Governo Lula no sentido de manter e incrementar o desenvolvimento nacional.
Por último, é torcer para que as coisas se acertem em nível internacional, já que a economia mundial se transformou em um intricado jogo, que nada tem a ver com o racionalismo do xadrez, mas sim com a imprevisibilidade e risco do pôquer. O problema é que todos nós sofremos as conseqüências, inclusive e, especialmente, dos blefes.